Bicho 1x0 Galo foi a notícia; Willy Gonser também

NO ANO em que o Montes Claros Futebol Clube subiu para a 1ª Divisão de Minas Gerais, Willy Gonser foi o primeiro cara da grande imprensa que veio à cidade. Narrou Bicho 1x0 Atlético, numa noite de quarta-feira - seis de março de 1997.


NÃO ME lembro o porquê, mas o CAM veio para o Norte de Minas com um time B. Deixou Taffarel, Márcio Santos, Marques e companhia em BH e mandou para cá Paulo César Borges, Marcos Adriano, Gutemberg, Cairo, Leandro Tavares, dentre outros. Perdeu para o Tricolor, que naquele momento já era uma das sensações do Campeonato Mineiro. O nanico Alemãozinho, aos 36' do 1º tempo, fez o gol da vitória, num voleio de fora da área; no ângulo. No ano seguinte, o Atlético viria a MOC já completo; venceu por 2x1. Marques, Dedê e Taffarel jogaram.

ÍDOLO DE muita gente, Willy, cuja vinheta mais parecia um gol de tão original, foi tão assediado como os jogadores atleticanos: fotos, autógrafos e até presentes. Também pudera, não só por ser a voz oficial do Atlético há décadas, mas também por ser o porta-voz de gerações e gerações de atleticanos, seja em momentos memoráveis como na supremacia alvinegra nos anos 80 em Minas ou, ainda, na época das vacas magras e de times de caneleiros, que um golaço valia como um título - e que os demais times de Minas também viveriam ao longo dos anos.

ESTAVA NO início dos trabalhos no Jornal de Notícias e, como me ensinaram na redação, quase como doutrina: "tudo o que era fora do normal, dava manchete". Sempre gostei de produzir algo diferente; uma coisa bem de bastidor que ajudasse a cativar mais leitores. Ainda tento ser assim.

FUI NA contramão. Enquanto os demais companheiros foram a campo entrevistar os jogadores do Atlético, que saiam de campo nitidamente alterados pela derrota para um calouro da elite mineira, fui para cima da laje dos vestiários do Estádio José Maria Melo. Esperei, numa espécie de campana, para entrevistar Willy Fritz Gonser; queria saber qual a impressão que ele teve da minha cidade, do nosso estádio e do time que estava ali a nos representar depois de mais de 20 anos sem um alguém da cidade na 1ª Divisão.

WILLY SAIU da cabine logo depois que chamou os repórteres de campo para o "trabalho de vestiários". Março ainda - como se o restante do ano não fosse - bem quente em Montes Claros. Queria água. Gentilmente, como em todos os jogos, a diretoria do Cassimiro, dona do campo, fazia a cortesia para a imprensa, com lanche, água, refris e frutas.

MAS A dele, na cabine, acabou. Estava com uma garrafa nas mãos e passei pra ele. Ali começava a conversa; entrevista. Na primeira pergunta, que ele respondeu comendo uma empadinha atrás da outra, quis saber se o placar era, de fato, um feito imensurável e se o Montes Claros iria longe.

"OLHA RAPAZ... Ter cabelo branco é um sinal de que eu vi muita coisa nesta vida. Não quero diminuir a importância do que o Montes Claros fez nesta noite, mas o futebol está muito além disso. Torço muito para que o futebol do interior de Minas cresça, seja grande, consiga incomodar mais e mais os times de Belo Horizonte, mas tudo acontece isoladamente. É preciso melhorar muita coisa, a começar pela estrutura e a mentalidade das pessoas; para que não se façam de vítimas por ser pequeno, mas que sejam reconhecidos pela vontade de ser grande..."

A CONVERSA se estendeu para os demais assuntos que pautei, mas esse trecho inicial ficou marcado, especialmente porque o futebol do interior mineiro continua vivendo de protagonistas efêmeros com cobertor de pobre: ou cobrem a cabeça ou cobrem os pés (ou têm estádios ou têm times - ou não têm nem um nem outro).

DAÍ EM diante, trocar figurinhas com a imprensa visitante tornou-se um hábito, até para promover a escolha do melhor em campo. Nem todos foram tão receptivos como Willy; inclusive, alguns de seus companheiros de emissora.




RESUMINDO: A prosa com Willy virou manchete; um "pingue-pongue" de meia página, que remetia não apenas à análise do Bicho, dos times do interior, dos estádios ou do momento do Atlético. As profecias do Alemão, que resumem especialmente o futebol profissional da cidade de Montes Claros, aconteceram. Há quase três anos, nenhum clube de Montes Claros disputa competição federada; e a entrada na 1ª Divisão, pela porta da frente, ficou só com o Bicho, lá mesmo em 1997.

COM 11 copas do mundo, Willy Gonser, que também era um exímio editorialista na Rádio Itatiaia, faleceu nesta terça-feira, aos 80 anos, em Belo Horizonte, em decorrência de uma pneumonia.

PS: a vitória do MCFC teve cobertura sim... O amigo e compadre Luiz Guilherme dos Santos foi o outro repórter do Jornal naquele dia e fez a resenha à beira do campo.
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Christiano Jilvan

Jornalista com quase 20 anos de profissão. Foi repórter e subeditor do Jornal de Notícias por mais de uma década, além de freelancer para os jornais O Globo, Folha de S. Paulo, Estadão, Estado de Minas e O Tempo. Colaborador para as TVs Geraes, Canal 20 e InterTV e Rádios Terra AM e Transamérica FM.

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