Marcelinho conta como superou o AVC, avisa que manterá estilo e planeja herdeiro

DE VOLTA para comandar o time pela terceira temporada seguida, Marcelinho Ramos abre o jogo, revela a angústia diante do já superado problema de saúde que o fez temer pelo fim da carreira de técnico e elogia o equilibro da equipe atual

Marcelinho Ramos está na 3ª temporada à frente do MCV (montagem sobre foto de Janjão Santiago)
DEPOIS DE uma saída traumática na última Superliga, às pressas, rumo a Porto Alegre, onde sua família reside, Marcelinho Ramos (42 anos) está de volta à cidade para comandar o Montes Claros Vôlei. Será pelo terceiro ano consecutivo. Foram cinco meses de lá pra cá, mas para o técnico pareceu uma eternidade. Ele foi diagnosticado com um quadro de AVC provocado por um problema congênito: má formação na veia. Uma forte dor de cabeça, que durou quase uma semana, foi o grande sintoma.

“A DEMORA do diagnóstico me fez pensar muita coisa”, revelou o técnico nesta entrevista exclusiva ao blog De Veneta. Pela primeira vez assumiu ter pensado que o problema de saúde pudesse comprometer a carreira. O repouso e o tratamento foram determinantes para a plena recuperação. Marcelinho já leva, novamente, uma vida normal. Ele voltou como antes e que seus comandados e a torcida não pensem que o técnico mudará o seu estilo.

A LINHA dura continuará, até porque a meta do MC Vôlei é chegar entre os quatro melhores da Superliga e brigar diretamente pelo Campeonato Mineiro. A escolha de reforços foi pontual, segundo o comandante: feita a dedo.

DEVENETA - De volta a Montes Claros. Como foi a decisão de aceitar de novo estar no comando do time de vôlei?

MARCELINHO – “Na verdade não foi muito difícil né? Aconteceu aquela fatalidade no meio da Superliga passada e, agora, houve um entendimento da direção do clube após a minha situação. Mas, falando sério: nunca deixamos de manter contato e nem passava pela minha cabeça ter saído da maneira que saí. A vontade de voltar sempre foi muito grande. Então foi uma coisa natural, que dependeu mais da minha recuperação do que, propriamente, de qualquer outra coisa. Existia a minha vontade e a vontade do clube. Posso dizer que o retorno foi algo tranqüilo”.

DEVENETA - Qual foi realmente o problema de saúde que você teve?

MARCELINHO – “Eu vinha sentindo algumas dores de cabeça e após o jogo contra o Cruzeiro se acentuou bastante [nota do redator: vitória do Montes Claros em pelo Ginásio do Riacho, dia 4 de fevereiro por 3 a 1]. A gente voltou de Contagem de ônibus, na véspera de Carnaval. Passei o Carnaval inteiro em casa com muitas dores de cabeça. Até achei que estaria com dengue e na Quarta-Feira de Cinzas fui ao hospital, fiz alguns exames e o médico não detectou nada, mas achou melhor fazer uma tomografia. E na tomografia acusou um AVC. Naquele mesmo dia eu fiz uma ressonância e no dia seguinte fiz um cateterismo – uma arteriografia cerebral que constatou o AVC. Enquanto o coágulo estivesse muito grande, o médico pediu de 30 a 40 dias de repouso e pediu para que eu voltasse para casa para dar continuidade ao tratamento lá em Porto Alegre/RS”.

DEVENETA - Foi identificada a causa deste AVC? Seria alguma coisa associada à rotina ou mesmo à tensão do trabalho ou, ainda, seria algo congênito?

MARCELINHO – “Foi diagnosticada uma má formação arteriovenosa, algo congênito. Mas num primeiro momento, não somente aqui em Montes Claros, mas também lá em Porto Alegre, como o coágulo estava um pouco grande não se conseguia identificar isto. Somente no terceiro exame é que realmente se identificou esta má formação arteriovenosa para, a partir daí, fazer o tratamento correto”.

DEVENETA - Para não acontecer de novo, o que os médicos te disseram? De repente, vai ter que mudar os hábitos?

MARCELINHO – “Não... Vida normal. Depois de diagnosticada a má formação arteriovenosa eu tive que fazer o que eles chamam de embolização – que não deixa de ser um cateterismo também. Ou, a grosso modo, fazer uma cauterização da veia que estava sangrando. Vida que segue e preciso ter os cuidados igual ao de qualquer pessoa: se preocupar com a alimentação, fazer atividade física e coisas afins, mas liberado para qualquer tipo de atividade”.

DEVENETA - Um trauma deste faz qualquer pessoa pensar em muita coisa. Você chegou a achar que, de repente, sua carreira estivesse comprometida?

MARCELINHO – “Ahhh... Não vou te dizer que não! Passou isto pela minha cabeça até mesmo pela demora do diagnóstico. Passa muitas coisas na mente! Mas são coisas que estão além de sua vontade, que não se pode tocar ou mexer... Se fosse da vontade de Deus que isso tivesse acontecido, a gente teria que passar por outra situação. Mas Deus sabe o que faz, sabe que eu batalhei bastante para conseguir este espaço, venho conseguindo bons resultados com equipes com os orçamentos bem inferiores aos demais e interromper isto, agora, não vou dizer que seria injusto, mas seria triste, acho...”

DEVENETA - Estas férias forçadas te fizeram ainda mais estudioso e, ao que parece, você mapeou estes atletas que vieram como reforços para o Montes Claros Vôlei. Qual foi o critério para indicá-los?

MARCELINHO – “Temos uma linha de trabalho: antes mesmo da questão técnica ou da condição tática e física de qualquer atleta a gente estuda o perfil do jogador. De como é a família, como ele age dentro e fora da quadra... Feita esta análise, aí a gente entra numa questão mais técnica. São jogadores que ainda estão procurando o espaço no mercado. Atletas que passaram pelas seleções de base como o Murilo [Radke, levantador] e o Reffatti, mas que, de certa forma, não explodiram na categoria adulta ou profissional e que estão querendo espaço. Então, dentro do perfil deles, escolhemos jogadores que querem ser vencedores. Isto basicamente é o resumo do que a gente procura. Fora isto, o Jonatas é um atleta que fez uma grande temporada pelo Voleisul no ano passado; o Robinho foi um dos maiores bloqueadores e contra o Montes Claros, especialmente, fez excelentes partidas no ataque também. O Murilo é um levantador muito alto, com características bem interessantes, diria que um atleta completo: ele saca muito bem, bloqueia muito bem, defende muito bem e tem uma qualidade de levantamento muito boa”.

DEVENETA - Você está chegando para a terceira temporada à frente do Montes Claros. Dá para comparar os grupos de atletas que teve em cada ano? 

MARCELINHO – “Desde quando cheguei aqui, esta atual equipe é a mais equilibrada que a gente conseguiu montar no que diz respeito à questão técnica e tática. Primeiro ano a gente tinha dois ponteiros que eram muito mais de volume (Cristian Poglajen e Ceará) e tinha o Léo e o Edinho com características um pouco diferentes. Ano passado, o Bob, um jogador de volume e que foi um dos maiores pontuadores de toda a Superliga, junto com o Cadu, um jogador praticamente perfeito. Mas o André [Nascimento] não era aquele oposto clássico, de força, que atacava bolas altas. Era um oposto que dependia muito da velocidade da bola do levantador e do passe. Acho que neste ano a gente conseguiu equilibrar estas ações: temos um oposto de força que é o Luan, o Bob um jogador mais de volume e passador, tem o Reffatti e o Jonatas que são de força, e tem o Alê que se assemelha muito ao Bob. O Alê é um atleta muito técnico, que eu acho que vai nos ajudar bastante. Acredito então que nestas três temporadas, neste sentido, este seja o time mais equilibrado que a gente conseguiu montar”.

"Esta equipe é a mais equilibrada que o Montes Claros já teve em meu comando"
DEVENETA - Antes da Superliga, entre jogos oficiais e amistosos, o Montes Claros tem uma projeção de quase vinte partidas...

MARCELINHO – “A gente queria jogar até um pouco mais do que isso em função do que está acontecendo no mercado. Só as equipes de São Paulo e o Cruzeiro começaram os treinos juntas com a gente. Há muitos clubes que ainda nem formataram seus elencos, o que dificulta a realização de alguns amistosos. Acho que até o início da Superliga o número fica nisto, o que não deixa de ser um número muito bom”.

DEVENETA – O grupo está fechado ou uma oportunidade de mercado pode render ainda mais alguma contratação para o Montes Claros?

MARCELINHO – “Não... O grupo está fechado com estes quinze atletas. Nem estamos abertos a alguma situação de mercado. Tomara que não ocorra nada nesta temporada como aconteceu na anterior quando perdemos o Wagner e ficamos um bom tempo sem ele. A gente acredita muito no potencial que esta equipe pode mostrar”.

DEVENETA – No início dos trabalhos na temporada anterior, você havia comentado sobre a vontade de aumentar a família e se tornar pai. E aí, quando o herdeiro vem? 

MARCELINHO – “Infelizmente, neste momento, a situação do mercado do vôlei não te permite isto. Gostaria muito de ter trazido a minha esposa para Montes Claros, mas para vivenciar uma temporada de 10 meses não tem como. Então, a gente ainda fica nesta dependência, sob certo aspecto um pouco triste em relação a isto, mas a gente faz o que a gente gosta, o que a gente ama e tem que ficar longe da família, mas foi uma escolha, faz parte... Quem sabe, mais adiante, a gente não consiga realizar este sonho”.

DEVENETA - Por último: você é sócio-torcedor do Internacional e daqueles doentes. Mesmo com esta intensidade de trabalho, acompanha de perto o Colorado. Até onde você acha que o Inter vai neste Brasileiro?

MARCELINHO – “Olha tchê (risos)... Acho que já foi até longe demais [N. do R. o Inter chegou a ser líder do Brasileiro e hoje está próximo da zona de rebaixamento; não vence há 10 jogos]. Acho que, na verdade, o Inter está passando por um processo de transição; tem um grupo esforçado que trabalha bastante, é um grande clube que tem uma camisa de peso e tomara que consiga pelo menos brigar por vaga na próxima Libertadores”.

Fotos: Christiano Jilvan
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Christiano Jilvan

Jornalista com quase 20 anos de profissão. Foi repórter e subeditor do Jornal de Notícias por mais de uma década, além de freelancer para os jornais O Globo, Folha de S. Paulo, Estadão, Estado de Minas e O Tempo. Colaborador para as TVs Geraes, Canal 20 e InterTV e Rádios Terra AM e Transamérica FM.

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