Entrevista Sergipano: Para subir mais um degrau

ANDRÉ MUNIZ busca neste sábado sua nona vitória como profissional; lutador faz o resumo da carreira e renova os planos de ser convidado para o UFC em 2015

Fotos: Vitor Reis/CornerBR
O montes-clarense André Muniz, o Sergipano (Tatá Fight Team – TFT/MOC) está entre as atrações do card do “Face to Face”, evento de MMA que acontece neste sábado (21), na cidade de Itaboraí/RJ. O adversário será Rafael Correa, novato em eventos oficiais como profissional (2v/1d). Com oito vitórias no card de 11 lutas pelas principais ligas de MMA do País, Sergipano projeta subir mais um degrau e para definitivamente despertar o interesse e ser contratado pelo UFC, a maior organização das artes marciais mistas do mundo. Caminho este que outro montes-clarense, Lucas Mineiro, faz parte há dois anos.

A nona vitória como profissional viria como um presente atrasado. Há três dias, Sergipano completou 24 anos. Destes,11 são dedicados às artes marciais e, mais especificamente, os últimos cinco, às lutas profissionais em eventos brasileiros bem conceituados como o Wocs, Bitetti Combat, Jungle Fight e o Fight Brasil Combat.

Além da vontade de alcançar uma ascensão internacional, o atleta falou à VENETA sobre como funciona sua rotina de treinos, os sacrifícios de uma dieta, o início da carreira, a alegria por liderar um ranking nacional e o lamento de ter lutas canceladas, além do reconhecimento do público, que o elegeu o atleta do ano no Troféu Bola Cheia aos melhores do esporte em 2014.

VENETA – Você teve uma experiência ruim de ter duas lutas canceladas por causa da desistência de adversários. Por que isso aconteceu?

SERGIPANO – “Vinha trabalhando muito forte, principalmente depois das duas vitórias no primeiro semestre [de 2014]. Por causa disso, marcaram mais duas lutas no segundo semestre em São Paulo (Ribeirão Preto) e Juiz de Fora e simplesmente os adversários não apareceram. Deram uma desculpa qualquer sobre mudança de contrato [quem assina com alguma organização do exterior perde o lugar no ranking brasileiro*], mas eu acho que era medo porque eu estava muito bem preparado”.

A coisa não é tão simples, né? O prejuízo foi grande porque você teve uma ascensão muito grande no ranking nacional* dos pesos médios do ano passado: saiu do sétimo lugar para a liderança; então perdeu a oportunidade de somar pontos...

SERGIPANO – “Caí no ranking por causa disso e foi muito ruim porque perdi a oportunidade de crescer ainda mais na carreira. O UFC, por exemplo, usa também como referência as melhores colocações nos rankings nacionais. Eu estava como o primeiro colocado no ranking e tinha uma grande visibilidade, bem próximo de dar o passo mais importante que considero que é chegar ao UFC. Mas como não lutei, não somei pontos e cai no ranking”.

Na sua opinião, o que te falta para chegar ao UFC?

SERGIPANO – “Acho que falta um pouquinho de sorte (risos) ou mesmo derrubar um atleta bem ranqueado em minha categoria. Venho de uma sequência de três vitórias em 2014 (duas pelo Wocs e uma no Bitetti) em lutas muito boas e faço parte de uma equipe que me dá um grande suporte e que já possui atletas dentro do UFC. Diria que é uma questão de tempo e uma oportunidade de aparecer”.

Atualmente, você consegue viver só como lutador?

SERGIPANO – “Ainda não... Sou professor de jiu jitsu e acadêmico do curso de Educação Física também. A luta vem para somar. Não sou um atleta patrocinado e nem tenho auxílio fixo. O esporte me mantém, mas a dificuldade é muito grande porque eu gasto muito e o retorno financeiro ainda não é compatível aos gastos”.

Além das contas, há outros sacrifícios: uma carga de treinos muito puxada, uma alimentação balanceada... Como é a sua rotina neste sentido?

SERGIPANO – “A palavra é justamente esta: sacrifício, que é muito grande. No meu caso, tenho que perder peso na preparação de cada luta. Meu peso normal é de 102 quilos e minha categoria é a médio, de até 84 quilos. Tenho que perder de 16 a 18 quilos para bater o limite. São até dois meses de dieta para atingir este peso. São sete horas de treino por dia e quando chego próximo às competições aumento a dedicação para até 10 horas diárias. Isso te dá o suporte ideal para fazer uma luta segura e que a preocupação seja mesmo somente com o adversário”.

Qual é o seu exemplo de atleta, aquele no qual você se espelha para realizar sonhos?

SERGIPANO – “Tenho uma pessoa como ídolo que poucos acreditavam nele e ele conseguiu mostrar para todo mundo do que era capaz que é o Arnold [Schwarzenegger]. No país de onde ele veio não havia um histórico de fisiculturismo e ele conseguiu ser três vezes campeão mundial. Foi para os Estados Unidos e tudo o que ele quis, ele conseguiu. Vejo ele como exemplo de pessoa persistente, que não recuou quando as portas se fecharam. A realidade é bem diferente em relação às modalidades, mas vejo o cenário parecido à dificuldade que a gente tem aqui no Norte de Minas, uma região de interior. Uma série de contratempos e a gente continua batalhando e lutando para continuar bem no octógono”.

Luta será a sexta no card deste sábado, com transmissão ao vivo pelo Combate
Diante de restrições, você já recebeu propostas para defender equipes de outras cidades e deixar Montes Claros?

SERGIPANO – “Já sim... Já fui convidado para defender outras cidades e outras bandeiras [equipes de luta], só que na arte marcial eu entendendo que você precisa ser fiel ao ambiente que te fez. E as pessoas que me fizeram estão aqui em Montes Claros e estou feliz ao lado delas. Logicamente que, se a gente crescer na carreira e tiver o sucesso de entrar no UFC é claro que vamos precisar incrementar esta preparação. Mas só vou pensar nisto depois que chegar lá”.

O que te levou a chegar nas artes marciais?

SERGIPANO – “Entrei muito novo no jiu jitsu, com treze anos. Cara (risos), eu era um menino muito bagunceiro, levado e minha mãe viu no esporte uma oportunidade de disciplina. Daí, migrei para o MMA, mas sem nunca deixar o jiu jitsu de lado. Agora mesmo [2014] me tornei pentacampeão brasileiro de jiu jitsu no absoluto – faixa preta; a categoria mais difícil. Sou faixa preta há quase quatro anos (1 Dan). Tenho este histórico no jiu jitsu que pouca gente sabe. Sou ainda tetracampeão estadual, campeão panamericano e sul-americano. O MMA aparece mais porque é o meu momento, as pessoas gostam mais e fazem questão de acompanhar. E a arte marcial veio mudar minha vida, posso dizer que dedico de corpo e alma”.

Quem organiza este ranking nacional e quais os critérios de pontuação?

SERGIPANO – “Vitória por finalização ou nocaute tem uma pontuação especial. Quando você luta contra pessoas bem ranqueadas também conta pontos de forma diferenciada. A base é o Sherdog [portal considerado como a maior referência do MMA na internet] e se a pontuação do seu adversário é positiva, você soma pontos. Tem pessoas que possuem mais lutas do que eu, mas a pontuação é menor porque procuram adversários mais fáceis ou que não estão bem colocados no Sherdog. Eu não escolho rivais e procuro lutar sempre com atletas com o cartel positivo. É até interessante isto, porque nas transmissões de TV esses caras aparecem como favoritos e eu vou lá e derrubo eles (risos). Venha quem vier, estou sempre preparado para a guerra”.

Face to Face: a tradicional encarada após a pesagem
Falando em rivais, tem um em especial que parece ser o inimigo número 1, que é o Júlio César dos Santos, que te derrotou duas vezes em 2011 e 2013. Fica aquela sede de ter uma revanche contra ele?

SERGIPANO – “Com certeza! Quando venci o João Paulo dos Santos em minha última luta, no WOCS 40 [dezembro/2014, no Rio de Janeiro], fui entrevistado pela TV ainda no octógono e falei justamente isto. E uma de minhas derrotas foi em Montes Claros, dentro de minha casa, o que me abalou muito. Mexeu muito com o meu emocional. Então, eu treino também para um dia ganhar deste cara; tenho que ganhar dele e no dia que isto acontecer eu estarei pronto para enfrentar qualquer um”.

Então é muita sede?

SERGIPANO – “Isso... Quero muito ganhar dele (risos); tomar o cinturão”.

Com esta rotina de até 10 horas por dia de treinamento, há ainda um tempo para acompanhar outros esportes ou outros hobbies?

SERGIPANO – “Gosto de passear. Viajei com a minha noiva recentemente para a Argentina. Dar uma descansada porque a rotina é pesada. Mas acompanho o futebol sempre que posso; fomos tetracampeões brasileiros com o Cruzeiro. Dependo das oportunidades. Tenho amigos que fazem outros esportes como o Júnior Shock no fisiculturismo e a garotada do handebol e do vôlei, com quem tenho o convívio próprio. Tenho admiração porque sei da dificuldade que todas as modalidades têm aqui em Montes Claros. Uns são exemplos para outros e sempre que recebo um convite vou ver, seja peteca, dama, xadrez...”.

Você nasceu em Montes Claros e ganhou o apelido de Sergipano. De onde veio isso ou há alguma ligação com Sergipe?

SERGIPANO – “Não há nenhuma ligação... Sou daqui e meus pais também são. Entrei muito novo na academia e os novatos sempre recebem um apelido. Não tenho um sotaque de lá, mas desconfio que o pessoal veio com essa onda por causa do tamanho da minha cabeça (risos). Acho que é proporcional porque tenho quase 1,90 metro, mas quando eu era novo a cabeça era desproporcional (risos). Mas não acha ruim não... Hoje, eu tenho a torcida dos conterrâneos mineiros e dos sergipanos”.

Nas redes sociais, a gente percebe que você tem muitos fãs e não é apenas aquele perfil do cara que gosta de artes marciais. São crianças, jovens, mulheres e idosos...

SERGIPANO – “Graças a Deus tive um ano muito feliz em 2014 com os resultados e com o reconhecimento do público. Recebi o prêmio Montes Claros Olímpica e no troféu Bola Cheia, além de receber a indicação em minha modalidade, tive uma votação bem expressiva para ser eleito o atleta do ano. O importante é manter a simplicidade acima de tudo, independente das vitórias e das conquistas. Manter seus ideais, respeitar e tratar bem as pessoas sem diferenças. Educação, independente de sua classe social, você tem que tê-la. Não tem como agradar todo mundo, mas a minha parte eu faço. E quem me conhece sabe de minha dedicação para representar a cidade quem sabe no cenário internacional. Talvez seja por isso que eu receba todo este carinho”.

* Ranking do site MM Premium, que considera os resultados dos últimos 13 meses dos atletas brasileiros que ainda não têm contrato exclusivo com nenhuma organização com sede no exterior, como o UFC, Strikeforce, Bellator e Dream, dentre outros.
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Christiano Jilvan

Jornalista com quase 20 anos de profissão. Foi repórter e subeditor do Jornal de Notícias por mais de uma década, além de freelancer para os jornais O Globo, Folha de S. Paulo, Estadão, Estado de Minas e O Tempo. Colaborador para as TVs Geraes, Canal 20 e InterTV e Rádios Terra AM e Transamérica FM.

1 comentários:

Maria Ribeiro disse...

Parabéns, Chris! Esse Sergipano é mesmo um menino de ouro e merece todo destaque!!! Que venha o UFC!