Piá, o campeão fora de quadra

Drama pessoal mostra como jogador tira força para superar adversidades

NÃO HÁ DÚVIDA alguma sobre o potencial que o time do Bonsucesso/Montes Claros mostrou dentro de quadra. Principalmente de superação, com viradas espetaculares quando a partida parecia perdida. Hoje, é nada menos que finalista logo em sua primeira Superliga Nacional de Vôlei, justamente a que vem sendo considerada a mais forte dos últimos anos por causa do repatriamento das estrelas da Seleção Brasileira e de jogadores que estavam há bastante tempo no exterior.


FORA DE QUADRA, a palavra superação parece ter mais impacto; ainda mais adequada à realidade. E mostra-se mais evidente em um caso especial: o do ponteiro Silmar Antônio de Almeida, o Piá, dono de um fã-clube interminável principalmente
de crianças não apenas pelo carisma e atenção nas fotos e autógrafos, mas, também, por ser um dos jogadores mais regulares na reta decisiva de Superliga, em especial no terceiro jogo contra o Brasil Vôlei Clube e na segunda partida diante do Sada/Cruzeiro, que garantiu a vaga na final.

CASAMENTO


AOS 23 ANOS
, católico praticante e palmeirense declarado, o paranaense Piá chegou a Montes Claros no meio do ano passado e já com uma responsabilidade que poucos na sua idade já têm: um casamento. Aos 21 anos, resolveu casar-se com Santuza, estudante de moda em São Paulo e que conheceu por ser vizinho. Ela morava no condomínio em frente ao CT do Banespa, o clube que o ponteiro atuava à época. "Fomos chamados de loucos, principalmente pelos nossos pais e familiares mais próximos. Diziam que eram duas crianças que estavam se casando", disse Santuza, mineira de Boa Esperança, cidade ao Sul do Estado.


IDAS E VINDAS entre São Paulo e Belo Horizonte, já que ele foi jogar no Sada/Cruzeiro, dois anos depois, em uma viagem de férias, a partir de sintomas como uma crise de tosse e, depois, uma série de exames, a esposa descobriu um tipo de linfoma na região do pescoço. Foram consultados médicos no Paraná e em Minas Gerais e o diagnóstico era o mesmo. A doença, comum em mulheres jovens entre 19 e 24 anos, exigiria um tratamento intenso, com baterias de exames, quimioterapia e radioterapia. Quando detectada no início, as chances de cura são de 95%.

TRANSFERÊNCIA

A APREENSÃO foi inevitável, pois tudo aconteceu justamente na transferência de Piá do Sada/Cruzeiro para o Bonsucesso/Montes Claros. Veio também um dilema para o jogador, que teria que buscar tratamento em uma cidade que até então não conhecia e de poucos amigos – naquela época, somente os companheiros que também chegavam na montagem do time de vôlei. "Por essas coisas, houve até resistência do meu pai em me deixar vir", acrescentou Santuza. A reação do marido foi imediata: "Casei-me com ela em todas as situações: na saúde, na doença, na alegria, na tristeza. Claro que ela veio comigo".


SANTUZA sabia que o tratamento seria moroso e complicado. Além de dores e da mudança de astral e enjoos, teria que passar pelo trauma da perda de cabelo. "Encontrei suporte em muita coisa, mas o Silmar foi imprescindível; homem em todos os sentidos: marido, pai, irmão, amigo; de tudo um pouco", desabafou. Não apenas pelo vôlei, mas no tratamento surgiram os novos amigos em Montes Claros, além dos amigos do próprio time, como as esposas e namoradas dos outros jogadores.

CURA E NOVOS SUSTOS


EM JANEIRO, veio a notícia mais esperada. Santuza estava 100% curada. A felicidade, no entanto, foi comprometida por outros dois sustos. Recentemente, o seu pai foi vítima de um assalto na própria casa. Foi covardemente agredido e precisou ser internado. Logo em seguida, no apartamento do casal, sentiu fortes dores abdominais e teve que ir às pressas para o hospital e teve a confirmação de mais um problema. Santuza precisaria ser operada imediatamente para a retirada do apêndice e de um dos ovários. Toda a experiência de vida fez com que o casal esquecesse uma mágoa sobre um certo comentário em uma rede de relacionamentos. "Alguém chamou o Piá de moleque; certamente porque não o conhece em nada", desabafou a jovem.


A CIRURGIA aconteceu em meio a um jogo decisivo do Bonsucesso/Montes Claros e Piá teria que viajar. Ainda internada, ela ficaria sozinha. "Não vou me esquecer nunca. Ele me disse: meu bem, tenho que ir, mas no pensamento vou estar aqui com você o tempo todo", completou Santuza, entendendo que o conforto do marido foi determinante para sua recuperação.

A FÉ foi cada vez mais reforçada. Em meio à agenda de treinos e viagens, o casal cultiva o hábito de ir à missa sempre que possível.
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Christiano Jilvan

Jornalista com quase 20 anos de profissão. Foi repórter e subeditor do Jornal de Notícias por mais de uma década, além de freelancer para os jornais O Globo, Folha de S. Paulo, Estadão, Estado de Minas e O Tempo. Colaborador para as TVs Geraes, Canal 20 e InterTV e Rádios Terra AM e Transamérica FM.

5 comentários:

Luiz Ribeiro disse...

Parabéns Cristiano Jilvan. Texto para entrar em qualquer jornal do País e no momento oportuno.
Luiz Ribeiro

lidiane disse...

primeiro parabésns Cris pela materia...ficou perfeita.
Que desejar cada vez mais sucesso e felicidade para esse casal que conseguiu superar a doença... com fé tudo dar certo. A humildade é transparente, imprecionante o amor desde casal...Muitas felicidades

Anônimo disse...

Parabéns Jilvan pela matéria publicada "Piá, o campeão fora de quadra", além de popularizar o volei em nossa região, vem com histórias de vida que ilustram o verdadeiro campeão.
Raviane Pascoal

Igor disse...

Quase sempre vejo o Piá e sua esposa nas missas de domingo a noite. Muito bonita a devoção do casal e o carinho que mantém um pelo outro. Parabéns!

RiCaRdO FREITAS disse...

Christiano, parabéns pelo blog.
Sempre atualizado e ainda com boas reportagens.
Só tem informação quem batalha por ela.
Continue assim.
Abraços
Ricardo Freitas
www.moctube.blogspot.com