Sandro: de Riachinho para a Seleção

Revelação do Internacional de Porto Alegre, onde saltou do juvenil direto para o time profissional pelas mãos do técnico Tite (ficou pouco tempo no júnior), o volante Sandro Ranieri Guimarães Cordeiro, 20 anos, é a maior novidade entre os jogadores convocados pelo técnico Dunga para os jogos contra a Argentina, e o Chile, quarta-feira que vem, em Salvador/BA. A vitória na noite de ontem por três a um garantiu de uma vez por todas a vaga brasileira para a Copa do Mundo de 2010, na África do Sul.

Para muitos, um desconhecido que aparece na seleção com a desconfiança de ser "uma média" de Dunga ao seu time do coração, já que ele foi convocado a partir da contusão de Josué. Mas para quem está mais próximo do futebol, Sandro parece ter demorado a chegar ao elenco principal. Faz até alguns lembrarem de Carpegiani e Falcão, guardadas as devidas proporções.

Afinal, ele já faz parte da seleção Sub-20 do Brasil vai disputar o Mundial do Egito), além dos 48 jogos oficiais – e três gols – com a camisa colorada em pouco mais de um ano, assim como os títulos da Copa Sul-Americana, Copa Suruga e do bicampeonato Gaúcho.

E se os torcedores do Inter estão eufóricos com seu novo camisa 5, os mineiros mais ainda. Sandro nasceu, cresceu e saiu de Riachinho, a cerca de 550 quilômetros de Montes Claros e 370 de Pirapora. Para muitos, ainda faz parte "do Grande Norte de Minas".

A projeção que o jovem alcançou dentro do futebol já era motivo de orgulho dos moradores da pequena cidade, de pouco mais de 8 mil habitantes, daqueles lugares que ainda mantêm uma das mais marcantes características do interior mineiro: "todo mundo conhece todo mundo". Até então, o local era conhecido apenas pelos moradores das redondezas, como a vizinha "um pouco mais conhecida" Urucuia, a 39 quilômetros. Hoje, mudou seu nome temporariamente para a "terra do Sandro".

Menino da roça

A origem de Sandro se confunde com a da maioria dos moradores de Riachinho. Os pais, seu Joaci Soares e dona Rosângela Conceição, são agricultores. E mesmo com o filho encaminhado na vida de jogador profissional, continuam morando na cidade, ou melhor, na zona rural do município. A fazenda da família, herança de um avô, fica a 25 quilômetros da sede urbana. A comunicação a distância é somente por rádio amador, segundo explica dona Nelsa Pereira, que foi professora do menino Sandro nas séries iniciais.

Como todos se conhecem naquela cidade, a vida de Sandro não é nenhum mistério, pelo contrário. Entre os entrevistados, não há quem não saiba como era a infância do jogador. Basta conversar em qualquer escola ou comércio, que a informação é imediata. "O Sandro sempre foi batalhador e com a família dele não tinha vida fácil: trabalhava na enxada; capinava, roçava; foi vaqueiro, tirava leite; enfim, todas as lidas da roça", conta seu Elizardo Francisco dos Santos, vizinho de fazenda da família do meia. O irmão Simon, outro filho do casal, também ajudava no trabalho braçal.

Seu Elizardo lembra que os primeiros chutes do menino foram os campos da zona rural de Riachinho, sem um time específico. "Depois que o pai dele foi para Brasília, é que o Sandro levou esse negócio de futebol a sério", acrescenta o vizinho, lembrando que, da capital federal, o meia foi para o Paraná Clube antes de chegar às categorias de base do Internacional.

Com a morte do avô, pai de seu Joaci, a família de Sandro voltou para Riachinho, assumindo a parte da fazenda que a herança lhe reservava. "Olha moço: o Sandro sempre foi um menino bom. Sempre ajudou o pai e, agora, mesmo longe, continua ajudando. E quando ele vem aqui, geralmente no final do ano, nem parece que é gente famosa", lembra Elizardo, antes de contar que, recentemente, seu Joaci adoeceu e o filho o levou para um tratamento em Porto Alegre, durante três meses.



Para dona Nelsa, um aluno quieto
Professora das primeiras séries não esconde a emoção pelo sucesso do filho ilustre de Riachinho

Perguntado sobre a proximidade com o volante do Inter e da Seleção Brasileira, a resposta estava na ponta da língua: "Conheço todo mundo: seus tios, pais, avós...", comentou o comerciante Aureliano de Macedo, o proprietário da Mercearia do Lé. Os familiares de Sandro são todos seus clientes e amigos. "No dia em que ele foi convocado, cheguei em casa de viagem e minha filha veio avisando. Custei a acreditar", acrescentou o homem que empresta o seu apelido ao comércio.

Para o comerciante, a reafirmação do jogador como filho ilustre é motivo de imenso orgulho. "A gente não vai perder o jeito simples, mas o povo de Riachinho vai ficar conhecido em todo o Brasil", comentou, ao lembrar que sua esposa foi professora de Sandro nas séries iniciais. Dona Nelsa, por sua vez, faz o mesmo discurso do marido, mas vai mais além: "fiquei emocionada com a sua convocação. Ele passou a ser uma das pessoas mais importantes para quem mora aqui, além de ser o orgulho da cidade".

Sobre o Sandro dentro da sala de aula, na 5ª e 6ª séries da Escola José de Alencar, na área urbana de Riachinho, ela se lembra muito bem. "A agitação é algum comum nas crianças, mas o Sandro era bem tranquilo. Aliás, as crianças que vinham da zona rural para estudar aqui se comportavam dessa maneira", explicou a professora, dando a entender que o fato de o menino trabalhar ao lado do pai na roça tinha uma disciplina diferente; mais rígida.




Discurso é humilde e título da base o mais marcante
Jeito mineiro ajudou na carreira, de quem, há menos de dois anos, morava no alojamento do Beira Rio

Assim como a reviravolta na vida pessoal, a mudança drástica dos campinhos de várzea de Riachinho para os gramados mais famosos do País tem capítulos interessantes para Sandro. Há menos de dois anos, ele era mais um dos tantos atletas de base do Internacional que moravam nos alojamentos do estádio Beira Rio, em Porto Alegre. Hoje, além de titular colorado, tem lugar cativo na principal seleção de base e, na pior das hipóteses, fazendo sombra para o grupo que vai a mais uma mundial, ano que vem.

Antes da apresentação ao técnico Dunga, o discurso era de gente humilde. Ciente de que as coisas aconteceram rápido, o volante aproveita para tirar lições de cada experiência: "me sinto preparado, mas o futebol é o momento; vivo um bom momento e me sinto cada dia mais confiante". Para Sandro, "vestir a camisa da seleção já na base, é uma honra e ajuda até mesmo o emocional para se fazer parte da seleção principal".

Garante que aplicou o jeito mineiro na carreira, "comendo pelas beiradas". A fala modesta é justificada na resposta à pergunta sobre o título mais marcante nessa curta carreira. Mesmo com conquistas internacionais, vai direto à origem: "foi o campeonato gaúcho de juniores, que o Inter não ganhava há seis anos". A Copa do Mundo é o seu próximo sonho.
Fotos pela ordem: CBF News e VIPCOMM)
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Christiano Jilvan

Jornalista com quase 20 anos de profissão. Foi repórter e subeditor do Jornal de Notícias por mais de uma década, além de freelancer para os jornais O Globo, Folha de S. Paulo, Estadão, Estado de Minas e O Tempo. Colaborador para as TVs Geraes, Canal 20 e InterTV e Rádios Terra AM e Transamérica FM.

3 comentários:

cleber Gontijo disse...

Riachinho se orgulha do filho ilustre e torce pelo sucesso do grande SANDRO. Parabéns campeão!
Isso sim é que é um exemplo de vida, valorizar a origem simples nos momentos de glória.
Nós realmente nos orgulhamos de você.

Anônimo disse...

Olar povo de riachinho tenho
prasser em esta perto desse idolo riachinhese a qui no sul do brasil. E já o vir jogar pelo inter bem de perto aqui no sul.A cidade onde morro em santa cruz do sul . Vai enfrente sandro da orgulho ao nosso povo de riachinho.

Edvaldo Lucas disse...

Edvaldo Lucas,

É motivo de muito orgulho para nós Riachienses, principalmente porque serve de exemplo para muitos, que acredita e vai em busca de um ideal. parabens Sandro.